sexta-feira, 18 de setembro de 2015

TickTock the Crocodile e Cachoeira do Tabuleiro...



TICK TOCK THE CROCODILE 


A Serra do Cipó ganha mais uma via. Desta vez, ao lado esquerdo de uma grampeação antiga à esquerda da Captain hook. Sandro e uma galera vinham provando e a cada tentativa os movimentos foram saindo. Equipada por Alexandre Fei e Raoni o link são dois 'boulders' em 4 chapeletas. O primeiro boulder bem factível em torno de V3 e o segundo em torno de V7... Os dois juntos, as quatro chapas podem ser em torno de 9a/b (?)...

Muito boa, a linha se divide em 3 partes totais, o nono grau inicial, um meio de resistência e um final em torno de V5/6 (?). Totalizando 9a/b + 9a/b = 10a/b? De qualquer forma a via é uma KingLine, com uma ótima resistência para quem está no grau sugerido. Bem mais fluida a via com certeza vai atrair muitos escaladores. Parabéns Galera! Mandaram bem!!! ...TICK TACK..TICK TACK...

TickTock the Crocodile e Captain Hook


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CACHOEIRA DO TABULEIRO 

Hidro no topo "for fun" e Smoke on the Water.

Depois de uma boa "cadena", outra boa escalada em um dos picos mais incríveis de "tradicional esportiva" da região, Tabuleiro. Pensava e buscava a um tempo voltar em forma para então reativar projetos guardados em mente...

Hoje, penso que este seja o lugar de projetos importantes para os próximos anos, sua extensão e altura pode render bastante trabalho para quem deseja superar limites. Desta vez fui convidado a voltar na cachoeira para guiar meus amigos da Catalunha, Judith e Uri e na sequência fazer um "mini-curso" de montanha. Revisamos na prática paradas duplas, ascensão em corda, colocação e retirada de peças, rapel, organização de equipos e bivak. A galera mandou bem nos procedimentos e foi super tranquilo! Foi ótimo ver que tudo permanece como deixamos. O platô continua lindo, com algumas árvores mais secas, super organizado e limpo. A pedra continua vertiginosa, imponente...Cheia de projetos...

Próxima aventura, 'Smoke on the water'.

Tabu sempre incrível!

Desplomelândia 7c+ , primeira depois do Platô na 'Smoke on the water'.

'Smoking Drugs 8a+', segunda depois do Platô na "Smoke"... The Crux!









Cume!!!
MINI CURSO DE MONTANHA - HIDRONOTOPO















PRESENTE

Fim de mais uma trip!!! Valeu Galera!!! Seeaaa!!!








sábado, 12 de setembro de 2015

Life goes On

resiliência é um aspecto, capacidade de o indivíduo lidar com problemas, superar obstáculos ou resistir à pressão de situações adversas. No entanto, se trata de uma tomada de decisão, quando alguém depara com um contexto entre a tensão do ambiente e a vontade de vencer...

A resiliência de um indivíduo dependerá da interação de sistemas adaptativos complexos, como o círculo social, família, cultura, entre outros. Alguns pesquisadores concordam que a resiliência pode se apresentar ou não em vários domínios da vida de uma pessoa e variar ao longo do tempo.

...Tudo mudou de um dia para o outro, em uma temporada que prometia muito. Este era um ano cheio de planos e projetos, o primeiro sentimento foi de alívio e gratidão por estarmos vivos mas depois veio a tristeza, a dúvida se iriamos conquistar nossas vidas de volta, voltar a escalar e seguir nossos sonhos. Foi em uma terça-feira 23, algo em torno de 8:20 da manhã quando fomos surpreendidos por um acidente automobilístico, uma sina, um fim, que parece perseguir escaladores de todo o mundo. Automaticamente lembrei do meu amigo Eduardo Barão que sofreu uma queda em uma montanha e a primeira atitude que tive foi de total contração muscular, para naturalmente responder ao tamanho impacto... Naquele momento uma tsunami passava em nossas vidas.
Um dia antes, representando um momento super especial em minha carreira. - FreeSolo Sinos de Aldebaran.

O 'produto final' da tal "tsunami"...

 Meus amigos sofreram muito e foi um choque para todos que participaram de alguma forma daquele acidente, tivemos sorte, hoje melhor e nos recuperando consigo falar melhor no assunto. Fica difícil descrever oque aconteceu, na verdade o choque e os traumas decorrentes de um fato como este vão além de nossas imaginações...


Danos físicos, L1 L2 L3 e L4 fraturadas.

Fica difícil descrever também como tudo mudou de um dia para o outro, todas as minhas referências de medo, limite e superação se transformavam... Mudaram também meus pontos de vista sobre diversos assuntos, maneira de ver o mundo, objetivos. Veio junto com esta mudança a vontade de superar, transformar algo, lutar pela vida. Foram 60 dias de muita paciência aonde contei também com a ajuda de vários amigos e técnicas que sempre pratiquei com lesões como a "apiterapia" e "Contrastes". Além de tudo isso o mais importante é realmente a "aceitação" do todo...E seguir em frente...

Apiterapia e Contrastes somado com a técnica de "Ventosa" foram fundamentais para minha recuperação.



 Os dias se passaram devagar e a cada dia sentia uma melhora, meio por cento era o sentimento de mudança. A positividade mental para criar um ambiente, boas perspectivas, bons pensamentos fizeram total diferença. Penso que somos todos afortunados, abençoados por uma força, o poder sobrenatural da vida...





...life goes on dude...
                         
                                           



segunda-feira, 18 de maio de 2015

FreeSpirits - DeanPotter

Dean Potter
Fica difícil encontrar palavras para representar oque esta pessoa me passa e me passou ao longo dos anos de escalada. Me lembro dos filmes de escalada "Masters of Stone" com as clássicas trilhas sonoras de "Sangano" ao fundo, aquilo era a maior referência de liberdade na escalada que poderia conhecer na época. Existiam outros mestres da escalada como Dan Osman, John Bachar e outros, mas Dean Potter era diferente ou semelhante demais, ele parecia ser o mais próximo da minha/nossa personalidade, era e é o exemplo mais próximo dos meus sonhos...

Dean "free-basing" no Eiger. Primeira ascenção da história no estilo.
06/08/2008 - Deep Blue Sea 5.12+

Allienroof
O tempo se passou e fomos ganhando força com suas conquistas, nós loucosdepreda vibramos por toda a superação. Dean Potter foi abrindo nossos olhos para um futuro, misturando sua arte em escalar sem equipamentos com o base-jump. Daí surgiu o Free-Base ou "Free-basing" e com algumas linhas como a do "Allien Roof" ele solidificou o estilo, no meu ponto de vista a um passo do futuro ou diria, espaço???

                                                                          

O estilo praticado por Dean e muitos outros escaladores, sempre muito criticado leva sua fama de perigoso e extremo mas dessa vez o "Free-solo" não foi o causador do acidente, eles, "Dean Potter" e "Graham Hunt" estavam tentando um "proximity" saindo do "Taft Point" com seus "Wingsuits"...Mas agora isso não é oque importa...A morte ou passagem é consequência de nossas vidas... 
"Free-Basing" no Eiger.

Particularmente vejo de outra forma esportes extremos, vejo o estilo "freeSolo" como símbolo máximo da consciência e conexão com a escalada; é o ponto divisor aonde tudo deixa de ser um passatempo e se torna real. Enquanto escalamos de corda estamos trapaceando contra a montanha, é quase um blefe poder cair , utilizar equipamentos, continuar e dizer que superou a montanha. Ao mesmo tempo seguimos escalando de corda em busca do aprendizado, dos estudos, da integração.

Imagino o "free-solo como um combinado justo, sem trapaças, olho no olho... É o estado  mais pleno da escalada em rocha, independente dos níveis de dificuldade. É por isso que respeito tanto esse cara, que infelizmente não tive a sorte e tempo de conhecer...


Dean e Wisper.
   Hoje não me sinto nem melhor e nem pior em fazer parte deste pequeno grupo. Sinto como sempre um sistema conservador, como disse antes, sinto as "associações" sempre controlando, direcionando a favor de suas vontades e se esquecendo da essência do esporte; contraditórios também algumas "marcas" que se dizem "radicais" e que não sustentam sua imagem ou verdadeiro gosto pela modalidade, pessoas que se dizem escaladoras e que criticam muito nossa própria arte. Muitas vezes é bem complexo se manter motivado ao longo de tantas negativas e espero que a atividade seja vista de forma natural, sem drama.

Dean em sua trajetória passou por um momento difícil em sua carreira profissional, em 2006 com seu solo em "Arches national park". Suas perdas foram indescritíveis...

Sinto também que ao morrer ou passar para outro plano Dean espalha sua energia, sua força, nos alimentando de pura motivação, algo que provavelmente o alimentou ao ver seus heróis partirem. A comunidade em peso sentiu e compartilhou palavras de força, luz, como disse um amigo, "a energia dele vive em nós"...

        ...Espero que este espírito nunca morra, que seja eterno nos corações dos bem aventurados... 

Dean "flyfree".
Hoje me sinto triste, porém mais forte para continuar meus sonhos e projetos, Dean Potter estará sempre em minhas, nossas escaladas... Descanse em paz cara!!! Fly Free Dean!!!  



Um  pouco sobre "FreeBase"...

sábado, 6 de dezembro de 2014

Os Intocáveis 11a(br) - 8c(Fr)

A via "Os Intocáveis" se localiza no setor Pcc na Serra do Cipó, 8c(fr) 11a, graduada inicialmente por Felipe Camargo (FA) e depois com a "nossa" segunda ascenção e logo uma semana depois com a terceira ascenção de Antoine Hernandez.

A história foi mais ou menos assim, aberta por Alexandre "Fei" e Fábio "Moleza" em 2012/2013, a via ficou meio esquecida e sua imponência selecionava bem quem tentava isolar seus movimentos. O primeiro creio que foi o Felipe "Cabeça", que entrou na via e isolou alguns dos mais difíceis lances e ainda assim não havia confirmação dos betas, depois veio Rafael Passos que enfim tirou os betas mais detalhados, como o estranho começo e a louca parte do meio, aquela parte me parecia bem futurista, boulder graduado em torno de v8/9?... Rafael "Fanfa" também contribuiu dando pegas e deixando a via equipada para futuros trabalhos...Muita coisa envolvida!

Mais ou menos a temporada foi chegando e logo me motivei também, tentar aquela via parecia ser um ótimo projeto para esta temporada de 2014, escalada nova em um dos mais novos setores do cipó. Fino. O tempo foi passando e logo os betas foram se desmistificando, as sequências encaixando, mas ainda havia uma dúvida quanto ao final da via. Um boulder, provavelmente o mais difícil de toda a via. Foi ai que Pedro Rafael com toda sua força e experiência isolou os movimentos do final, um suposto V9 de poucos movimentos e ainda assim Felipe Camargo com sua primeira ascenção lapidou os betas do final tornando mais aceitável e possível a sequência toda.

Acabei misturando os betas depois de muitas tentativas...

Depois do possível 10b? (8bfr?) que é a somatória das duas primeiras partes (começo e meio), vem um descanso não muito bom e você entra no boulder final. Uma laca (folha) boa, uma pinça plana incrível, um "talon empeine", reglete micro (crux), troca pés, lateral pequena, chifrinho e explode no regletão... Assim o boulder vai diminuindo de potência com alguns movimentos mais controlados.

Realmente uma das vias mais difíceis que já "encadenei" e creio que foi possível com a mistura de todos os betas de toda a galera, trabalho de puxar árvore para poder pular uma costura do final que também foi reposicionada, vários dias limpando a via, dedicação total.

Deixo um video roots para a galera...
Boas escaladas!!!
Visitem a Serra do Cipó!!!
 

sexta-feira, 24 de outubro de 2014

Back to d roots.

Meio que fora de ordem este post entra antes de "Os Intocáveis" com a 2a cadena do 11a (8cfr) e "Tabuleiro Free Climb" com as possíveis ascenções em livre da grande e imponente cachoeira.

Mas é assim, sem ordem e programação as coisas acontecem... Meio que de surpresa, a mais esperada hora tinha chegado, quando todos os "brinquedos" acabaram e sobraram apenas os verdadeiros desafios. Era hora de fluir. Já sentia chegando a vibração, o momento, mas não tinha certeza e fui administrando entre sessões de boulder e vias fáceis aonde o mais importante era estar escalando bem, tranquilo. Ganhando uma experiência ali, uma confiança aqui, fui aprimorando cada beta de todas as vias que estava escalando, tentando sempre encontrar a perfeição. No dia um vento sinistro me colocou na posição de pensar se realmente queria estar alí, foi simples, bastava começar com o primeiro movimento... Colocar a sapatilha...

...Depois como sempre, alguns longos minutos na posição de simples espectador...Pura conexão!!!

Creio que este foi o maior presente que poderia ter ganho de aniversário este ano, escalar vias clássicas no estilo mais "flow" que existe, senhorrr!!!! Um misto de surpresa e retorno depois de tanto projetar, sonhar e trabalhar pela escalada, foi sincero, um brinde às "janelas perfeitas"...

Hoje penso e fico emocionado em saber que tudo aquilo que acreditava no passado era verdade, escalada após escalada, ganhando experiências para os próximos projetos, novas fases vão se aproximando, caminho sem volta.

Queria dizer que existe uma consciência enorme entorno de toda a escalada realizada, foram anos de dedicação e trabalho. Deixo dois videos para a galera do Brasa, uma pequena amostra dos solos. Em breve full video da Sinos e outras clássicas do cipó, produção independente de "Loucosdepreda" e Bruno Graciano.

Gostaria de agradecer toda a galera do Cipó e amigos que sempre estão dando o suporte!!! Valew Mr.Bean pela vibe e confiança!!! Flowww galeraaa Flowww!!!

Imagens: Leandro Iannotta.

Escamoso 7b+
 
Escamoso FreeSolo from LoucosdePreda.blogspot.com on Vimeo.

Sinos 7b+/c (para"Tablet").
Sinos de Aldebaran FreeSolo from LoucosdePreda.blogspot.com on Vimeo.



quarta-feira, 10 de setembro de 2014

"Place of Happiness" em um dia.

Um dia antes, na frequência máxima!!!
Foto: Fernando Lessa 

Desde que me conheço por escalador, escalar grandes montanhas é o presente máximo que se pode ter desta vida, entrar em outro mundo e voltar, viver experiências fora do nosso plano e voltar é algo realmente especial. Escalar uma montanha como esta em um dia foi o maior prêmio que poderíamos ter depois de tanto acreditar e respeitar o tempo...

Este era um projeto meu e do Biê em particular, desde que vimos pela primeira vez as fotos da parede já era óbvio que um dia escalaríamos esta montanha em um dia, ficamos fissurados na época com a idéia e isso nunca saiu de nossas cabeças. O tempo passou e depois de 3 anos concretizamos uma ascenção da via em 3 dias, eu , Serginho e Biê. Após o sucesso de nossa escalada estava ainda mais claro que poderíamos fazer a via em 1 dia. Mais umas semanas se passaram e começamos os planejamentos... BiÊ acabou ficando ocupado com uma nova temporada dos "Montanhistas", Serginho nesta hora muito motivado entrou de cabeça no plano...

Respeitando todas as pessoas, escaladas e tentativas que foram feitas na "Place", fiz um plano em uma folha de papel aonde dividia a via em "horas escaladas" por "cordadas" para prever a chegada ao cume, parecia um plano audacioso bater o recorde do "quase cume" dos atletas profissionais da Adidas que se "perderam" antes da "P17", 5 metros antes de uma chapa e mais 2 metros para a parada e então mais uma cordada para o fim da via... No vídeo a escalada se mostrava bem difícil em um dia...

O plano inicial fazia uma previsão de sairmos do chão as 04:00 e chegarmos ao cume as 17:00, plano que parecia ótimo em comparação a outras tentativas. Naturalmente, sem pressão alguma a escalada fluiu e falando mais alto que nossas expectativas fomos presenteados com a "Primeira ascenção em um dia" da via com apenas 10 horas de escalada, pontualmente de 04:40 à 14:40...

Com o Serginho a escalada se tornou muito tranquila, entramos no ritmo rápido e fizemos as primeiras 6 cordadas "a françesa", direto para a base dos diedros (+-2 horas) com ele guiando. Passei e fiz o primeiro diedro de 7o. Nessa hora rolou um visual surreal do vale, um teto de nuvens baixas e faixas vermelhas de raios de sol com uma leve garroa no ar... Ele veio guiou o primeiro 8c (7b+) do diedro e eu guiei o segundo de 9a (7c) que tem seu crux bem marcado no diedro abaolado. Neste momento (+- 09:00) estávamos nos sentindo tão bem que resolvemos abandonar a mochila em um buraco abaixo da parada e subimos apenas com uma garrafinha de água cada, 2 maças e uma barra de "diamante negro". Seguimos mais duas cordadas assim, ele guiou o próximo 8c e eu o negativo 9a que deu um certo trabalho de resistência com uma certa sensação de câimbra nos braços a todo momento de "blocância", rs... Chegamos na P11 aonde rola um ótimo ponto para "portaledge" antes do meio dia, totalmente adiantado em relação ao plano inicial e tínhamos um tempo para descanso que foi ignorado pela vontade indomável de subir a pedra. Continuamos como loucos em um ritmo bom porém bem controlado, com segurança ( clipando todas as chapas, diferente da primeira parte à francesa aonde clipamos apenas as paradas...) fomos passando parada por parada até voltar ao estilo "à francesa" nas últimas 3 cordadas e finalizando com uma certa "euforia" oque foi por todo o dia uma longa e meditativa escalada...

Foi mágico, chegar no cume mais uma vez nos trouxe uma sensação de paz, alegria, missão cumprida e gratidão por tudo, horas de empenho e determinação, paciência. Ficamos quase uma hora "viajando", curtindo o cume e observando outras vias para se abrir (Projeto Travessia História sem fim para 2015) e começamos a descer às 15:30, chegando em terra às 19:30... Incrível...

Dicas:
_ Duas Cordas de 70 podem diminuir número de rapel em cordadas variadas como da p13 para p11 e outros...
_Particularmente prefiro o rapel pelos diedros ao invés de rapelar direto para o grande platô das árvores ao lado.
_ Para a cordada de 8c do diedro melhor usar o nut 00 ao invés de microfriends na parte "expo", não caímos, então cuidado com o teste.
_ Para a cordada de 9a do diedro usar .75 no lugar da agarra de mão e entrar no crux aceitando o abaolado do diedro e movendo o pé esquerdo alto, ganha altura, entra no diedro e coloca um número 3.
_ Para a cordada de 9a do negativo, após o negativo dar a volta pela direita e pegar um diedro, voltando para a esquerda depois para acessar a chapa.      
_ Para o final da via. P17 seguir reto na rampa que não tem nenhuma chapa, passar os bicos e seguir reto no vertical, logo aparece uma chapa e a parada.

Agradeço aos que sempre me apoiam, minha família, meus amigos, Edimilson Duarte por nossa estadia em seu refúgio e ao Serginho que patrocinou a gasolina da viagem.

Fica guardada minha eterna felicidade em poder concretizar da maneira mais simples o que antes era para nós um dos mais fatos complexos... Vlw Serginho e Biê!!!

...e os trabalhos não param...

Próximo post: Escalada em Livre na Cachoeira do Tabuleiro e Segunda Ascenção da via "Os Intocáveis" na Serra do Cipó.

Bons Ventos e Boas escaladas!


domingo, 3 de agosto de 2014

Pedra Riscada - "Place of Happiness"

Há alguns anos atrás fiquei sabendo da existência da Pedra Riscada através de notícias da conquista de uma linha impressionante nomeada "Place of Happiness", o lugar da felicidade. Só isso já era o suficiente para gerar o interesse em muitos escaladores.

Pedra Riscada vista pela face nordeste. Foto: Bernardo Biê.

Passado algum tempo vários grupos tentavam repeti-la, entre sucessos e fracassos alguns deixavam suas experiências registradas em relatos empolgantes, o que motivava ainda mais outros a tentar o feito de escalar seus 850 metros de puro granito.

Sérgio Ricardo aos pés da Pedra Riscada com a via
 "Place of Happiness ao fundo. Foto: Bernardo Biê.

Desde então alimentamos essa vontade e começamos a planejar nossa tentativa, mas os caminhos da vida pareciam não colaborar para que de fato isso acontecesse. Foram 3 anos coletando informações, combinando, planejando, alimentando essa semente, mas ainda sim na hora "h" alguma coisa impedia nosso avanço em direção a tão esperada montanha.

De repente, meio que na marra, as coisas foram se encaminhando e em 1 semana tudo estava pronto para nossa partida à cidade de São José do Divino, nordeste de Minas Gerais, quase na divisa com o Espirito Santo.

Os escaladores Lucas Marques, Bernardo Biê e Sérgio Ricardo 
durante a repetição da via "Place of Happiness". Foto: Lucas Marques.

Tive a sorte de me juntar a dois escaladores que admiro, e ainda mais sorte em poder compartilhar essa experiência com eles. Por coincidência dois mineiros radicados no Rio de Janeiro, Lucas Marques e Sérgio Ricardo. Todos super motivados a fazer essa escalada juntos, esse foi o combustível que precisávamos para alcançar esse cume. Estava escalando desde o começo do ano em parceria com o Sérgio, fizemos uma boa sequência de escaladas, mas fazia algum tempo que não via o Lucas, já não me lembrava a última vez que escalamos juntos mas sabia que ele estava afiado e sedento por essa oportunidade. 

Bernardo Biê no 1o diedro da via "Place of Happiness". Foto: Lucas Marques.

Nossa estratégia inicial era bem diferente da que adotamos. A princípio o mais importante era ir leve e ser ágil para tentar o cume em um dia, mas concordamos que seria mais divertido passar mais tempo na parede, desfrutar dos detalhes que a via poderia nos oferecer. Logo essa opção ganhou força e decidimos levar o acampamento para a parede.




Sérgio Ricardo guiando o 2o diedro , 8b/c br (7b/+ fr). Foto: Bernardo Biê.

Juntamos tudo que era preciso, com algumas exceções, e partimos de ônibus para Belo Horizonte encontrar o Lucas e seguir de lá de carro para São José do Divino. Depois de quase 14 horas total de viagem finalmente chegamos aos pés da Pedra Riscada de frente para a face nordeste, já tarde da noite decidimos bivacar na beira da estrada. O céu estava tomado por estrelas e não se passava nem 5 minutos sem que uma estrela cadente cruzasse sobre nossas cabeças. Claro, todos os pedidos eram os mesmos, fazer o tão desejado cume.

Lucas Marques guiando o 3o diedro, um dos cruxs da via 9a br (7c fr). Foto: Bernardo Biê.

Como escalaríamos com suprimentos e equipamentos para mais de um dia na parede, nossa estratégia era descansar um dia antes de começar a empreitada. A ansiedade era quase incontrolável, ainda nos seguramos bastante mas às 15h começamos as primeiras 6 enfiadas com o objetivo de deixar o haulbag e as mochilas no final do primeiro terço da parede. Às 19h começamos a descer com o objetivo concluído.

Bernardo Biê guiando a saída do último diedro, um dos cruxs da via 8c (7b+ fr). Foto: Sérgio Ricardo.

A via Place os Happiness está localizada na face nordeste da Pedra Riscada e conta com 18 enfiadas, na sua maioria de 60 metros de extensão cada uma, com graduações que variam entre o 4º grau e o 9º grau brasileiro. É uma via exigente, tanto no aspecto físico quanto no psicológico, pois além da dificuldade técnica ela também oferece alguns lances onde a possibilidade de queda não é muito agradável nem muito menos uma opção. Todos esses elementos atraiam ainda mais a gente e nesse embalo acordamos bem cedo para, ai sim, começar a escalar a parte exigente da parede.

Fomos revezando as guiadas e içando todo suprimento com o objetivo de alcançar o topo da 11ª enfiada. Enquanto um guiava outro participava e um jumareava, num esquema bem coordenado subimos pesados porém rápidos. Pelas informações que tínhamos ali, no topo da 11ª enfiada, era o melhor lugar para montar o portaledge e passar a noite. Realmente, naquele ponto da parede existem proteções que foram deixadas pelos conquistadores para esse fim, tudo indica que eles mesmos tenham permanecido ali por alguns dias enquanto conquistavam a via.

Os três escaladores no acampamento suspenso durante 
a manhã do segundo dia. Foto: Lucas Marques.

Para alcançar esse objetivo que traçamos tivemos enfiadas difíceis mas ao mesmo tempo incrivelmente lindas. Inacreditável como existem boas agarras entre alguns lances difíceis e algumas vezes desprotegidos. A via se mostrou ser totalmente o nosso estilo, a cada enfiada que vencíamos ganhávamos força e a vibração estava contagiante!

Ainda tenho as imagens na cabeça do lindo pôr do sol ao fundo enquanto montávamos e organizávamos nosso acampamento suspenso.


Apesar da noite estar super estrelada o vento era bem forte ao ponto de incomodar, não tivemos uma boa noite de sono. Dormir 3 pessoas em um equipamento feito para 2 pessoas não foi nada agradável, mesmo assim faltava apenas um terço da parede e as enfiadas mais duras tinham ficado para trás, tudo indicava que chegaríamos ao cume.

Acordamos bem cansados de trabalhar no içamento dos nossos suprimentos e ainda revezar as guiadas principais da via. Sem deixar a bola cair fomos tocando pra cima até que uma chuva inesperada nos alcançou depois de termos escalados 3 enfiadas, as mais difíceis do dia. Parecia que era o fim da nossa tentativa, mas de repente ela parou. Ainda confiante continuamos mais um pouco até ela voltar com tudo. E assim fomos, vencendo enfiada por enfiada entre o vai vem da chuva. No fundo torcia para que as últimas enfiadas não estivessem molhadas, pois deveria ser a parte mais exposta, já que a parede perdia inclinação drasticamente se tornando uma rampa nos últimos 100 metros, com pouquíssimas proteções. Pois bem, a chuva parou totalmente como que dando um sinal de que os Deuses nos permitiriam pisar no cume nesse dia. Dito e feito, misticamente tudo parou, a chuva, o vento, o tempo parou para os três pobres mortais explodirem de alegria ao alcançar o tão desejado cume da Pedra Riscada. Enquanto comemorava o feito, um lindo arco íris nos abençoava ao fundo. 

Sérgio Ricardo, Bernardo Biê e Lucas Marques no cume da Pedra Riscada depois 
de escalarem a via "Place of Happiness". 
Foto: Lucas Marques.

Tudo indicava que nossa descida  seria menos difícil do que pensávamos, já que tudo conspirava a nosso favor. E foi exatamente o que aconteceu, tudo deu tão perfeito que ao retornar para o portaledge decidimos recolher acampamento e descer imediatamente da montanha. Depois de rapelar por volta de 7 horas seguidas chegamos na base da via, por sorte apenas na última puxada de corda do último rapel, já com os pés no solo, a corda prendeu e tivemos que escalar uma parte da enfiada para retira-la.

O show da natureza durante a descida do cume. Foto: Lucas Marques.

As 23h da noite o jantar já estava sendo feito e o banho tomado, pareciam 3 crianças que acabavam de chegar do parque de diversões. Era inacreditável como tudo tinha dado tão certo, a sensação era de que uma verdadeira benção havia sido lançada sobre nós, principalmente porque no dia seguinte o tempo fechou e não parecia ser uma boa idéia estar na parede diante do clima que se formava. Aproveitamos para conhecer as outras faces da Pedra Riscada dando a volta por toda sua circunferência. No trajeto fomos até a cidade de São José do Divino guiados pelo nosso amigo Edimilson Duarte, ilustre cidadão da cidade e o maior incentivador das atividades de montanha na região. Edimilson é dono do Recanto Pedra Riscada, onde a maioria dos escaladores se abrigam, além de ser um dos maiores conhecedores da região, ele é o responsável pela divulgação da escalada e junto de escaladores mineiros está organizando o primeiro guia de escaladas da região.

Não vejo como poderia ter sido melhor, graças aos Deuses da Montanha e as diversas informações que conseguimos ao longo do tempo que planejamos fazer essa escalada com êxito e em segurança. Desde os relatos de outras pessoas que vivenciaram diferentes experiências e as divulgaram, até amigos que pessoalmente nos deram dicas sobre detalhes da via, todas as informações foram úteis e importantes, algumas pontualmente primordiais.

Nossos agradecimentos a: Silvio Neto (www.verticale.com.br), Daniel Araújo (www.rocksinrio.com.br), Flávio Daflon (www.ciadaescalada.com.br), Sergio Tartari (www.refugiodasaguas.com.br), Leonardo Mogli, Felipe Cabeça (www.4climb.com.br), que nos deram as dicas sobre a escalada e os lances importantes da via; ao Pedrinho da Adrena (www.adrenaesportes.com.br) por indicar as estradas e o melhor caminho; Edimilson Duarte e a Prefeitura de São José do Divino; e a todas as pessoas que de alguma forma nos ajudaram nessa empreitada.