domingo, 10 de fevereiro de 2013

tEW - Eurotrip

                                      
O tempo fugiu, passou e naturalmente veio a cura. Agora melhor e adaptado começam a sair as cadenas e escaladas de aventura, primeiro encadenando "Gigololo" para abrir a sequência, pois a mesma conta com "cantos" bons. Depois fissurei com a qualidade e psicodelia da via e matei de pegues a famosa "Mr. Cheky" que passa no clássico filme "Masters of Stone 4" com o "personagem" Tony Arbones escalando. Esta ultima ainda não saiu, mas de alguma forma me preparou para outras vias que estavam por vir... 
Neste "post" quero dar atenção ao tema "sobreposição de estilos", técnica adquirida e entendida depois de muito tempo escalando e que no caso é o que mais me completa como escalador. Misturar estilos de escalada creio que seja o grande segredo de muitos escaladores profissionais, sem falar em suas infinitas horas de treino, suas dietas e etc. A "sobreposição de estilos" faz com que se "reveze" agrupamentos musculares e movimentação específica evitando lesões e proporcionando um crescimento completo em todos os aspectos. 
...nada mais é que mudar os estilos em um curto espaço de tempo... 
Desde dezembro havia programado uma sequência básica para estar em forma no começo de fevereiro e sabia que seria necessário no mínimo um mês para começar escalar na pressão, forte de verdade. O bom tempo sem vento indicava a hora de voltar para o setor mais desejado de Siurana, El Pati. O setor já mencionado em outras postagens que para mim é um dos setores mais importantes do mundo, conta com vias clássicas como "La rambla", "kalea borroka", "Zona 0" , Patipami e outras...  
Quanto a escolher um projeto é importante um bom senso quanto à possibilidade de executa-lo em um "curto" espaço de tempo. Ser sincero com seu limite faz com que o tempo seja aproveitado com certa eficiência e produtividade nos dias de escalada. Mesmo não executando a via é necessário certa sensação de evolução.
...mudança de via e normalmente de setor podem ajudar muito, ficar "atrapado" na mesma via é um grande erro...
Mesmo sabendo que vários clássicos me esperam agora procuro fazer uma base de oitavos baixos (8a+,8b) e em paralelo vou provando os projetos e procurando aquele perfeito, que seja meu número. Após três semanas de Can piqui pugui, escalar no El Pati chega parecer fácil. Sair das vias de "bloc" e buscar meu melhor estilo já estava na hora, a continuidade me esperava... 
mto clássico...

Já no primeiro dia de volta ao setor dei um pegue na "Dogma" que tem como entrada a primeira parte da fissura "Kalea borroka" encadenada na temporada passada. Essa pode considerar uma das vias mais terapêuticas de alto nível que possa existir. Um 8b de 40 metros só de cantos bons. Há pessoas que possam achar um pouco difícil pela resistência e ritmo necessitado. Foi fácil e no segundo pegue, depois de malhar "boulder" no "can piqui pugui" o crux localizado ao meio da via nem existiu. Na verdade quase fui surpreendido na sua saída delicada e técnica em fissura de pedra "gris" com pés pequenos e movimentos sutis de oposição. Fácil mas ao final quase fui para baixo, um esforço a mais para sair da placa e pronto, cadena.
Depois motivado a top comecei a pensar em projetos futuros como "2x30", "Elrastro", "Mr.cheky, "Migranha profunda" e muitos outros. São muitos!!!Aqui o que não falta é projeto, seja qual for o seu nível e estilo de escalada. Com mais de 60 setores e mais 1.000 vias, não é possível que não se encontre uma linha perfeita. Tem de tudo por aqui, setores verticais técnicos, curtos de boulder, longos de "resis", negativos de agarras com bloc e tudo mais que se possa imaginar. Se quiser mudar completamente pode-se também pegar um carro e dirigir cerca de 30 km encontrando outra qualidade de rocha como o conglomerado de Margalef ou Montsant.

Como o estilo que mais me agrada é o de "placa semi-desplomada" decidi ficar pelo setor tentando outras vias. A próxima não poderia ser outra, "Zona 0".

Grande Vini encadenando "Zona 0".
Arquivo 2012.1 Fotos: Daniele e Ricardo Schen.
"Zona 0" , é o 8b mais encadenado de Siurana com mais de 120 ascensões catalogadas no site 8a.nu. A via é um clássico de Siurana. Um começo de bidedos ótimos com movimentos largos e uma virada de um pequeno teto marca a entrada da resis com movimentos longos em agarras médias. Bidedos e regletes em um leve “desplome” contínuo pedem um certo ritmo até um descanso em invertidas para entrar então no crux da via. O crux dessa via é algo que sempre me custou um "talento" a mais, sempre ficava na dúvida de qual lado escolher já que se pode fazer pelos dois lados...
 
Vini, na sequência do meio...
Pela direita um rebote em duas laterais e em pinça se ganha a agarra do meio do boulder e lança ao agarrão do final da sequência de mão esquerda. Pela esquerda três regletes bem pequenos indo de direita ao agarrão final de direita. Por fim escolhi um mix dos dois métodos aonde se utiliza o reglete central em bidedo, calcanhar esquerdo, um bico-mono de direita e lança ao final de mão esquerda, muito mais fácil...

Agora a força vai voltando, a motivação vai crescendo e as coisas vão fazendo sentido total... Que venham os próximos projetos, venga Oliana!!!


Em breve post sobre as vias equipadas ("Vinte pras nove" e "Haga lo que quieras") e um pouco sobre oque rolou em Oliana nessa primeira trip.

Boas escaladas...

sábado, 26 de janeiro de 2013

tEW - Eurotrip

"Una mica de Cornudella - Siurana...
   tranquilidade,paz,climb mor,fanatismo e roca buenaaaa..."




casita...
 
calle pescaters



Cornudella com "Montsant" ao fundo... dmais!
la reina





a caminho da roca...toca...
 

terça-feira, 15 de janeiro de 2013

The Endless Winter - Eurotrip


O "Pueblo" mais fanático do mundo...é perfeito!
 Tinha ficado na cabeça voltar algum dia e com tantas pedras, história, fanatismo, seria impossível não voltar. Agora começa a 3a Eurotrip que nasce da proposta em buscar as condições perfeitas seguindo a temporada aonde quer que ela esteja. Buscando também a "evolução" apenas em viver naturalmente dentro do universo da escalada, isto é, aprendendo com os grandes profissionais do assunto a arte de escalar/equipar vias esportivas. Fato que os acompanha a duas décadas a mais que nós brasileiros (ex: via/ascensão http://en.wikipedia.org/wiki/Action_Directe_(climb) ). Por volta de 1970 na Europa e finais dos anos 80 no Brasil. 

As condições climáticas perfeitas somadas com a qualidade da rocha e história de "pedra" fazem toda a diferença...



Separados por um longo "charco", América do sul e Europa se mostram muito mais distantes quando alguns fatores são botados a prova. Adaptação, cultura/alimentação, cotidiano, clima, sem falar também que é sempre bem difícil organizar todas as coisas para poder vir de corpo e alma para poder escalar com todas as forças e focado no "presente”...É difícil se "dar bem" e se acostumar com todas as mudanças. Como diziam, o melhor escalador é aquele que melhor se adapta.
 
Deixar tudo para trás em busca do "sonho" é muito mais que "viajar" para escalar, é dar um passo no vazio...
Dessa vez não foi diferente. Foram meses programando e esperando o momento de vir, esperando o "chamado" para comprar a passagem e começar a fechar todas as coisas no Brasil para então embarcar. Tive um "contratempo" de uma lesão, mas nada que tirasse a vontade de vir tentar por mais uma temporada os incríveis "projetos" da escola de esportiva mais importante do mundo. Sair do Brasil por um lado foi bem difícil, deixar os amigos, família, a cidade natal que me acolheu melhor que nunca... Por outro lado foi um alívio, deixar coisas que não me fazem bem como sistemas sociais falidos, companheiros de jornada "presos" no tempo, competições inúteis que não levam a lugar nenhum... 


Chegar e desembarcar foi aquela paz e alegria!!! Depois da entrada fui recepcionado pelo Schen que está aqui a alguns anos, amigo e companheiro de escalada está sempre motivado!! Foi perfeito, viemos direto para Siurana aonde o tempo clássico mostrava o frio e baixa umidade de uma temporada de dar gosto. O chão congelado e um sol de inverno faziam-me sentir o quanto é perfeito o clima de escalada que "derrama" das montanhas da Catalunia... É muito clássico!!!

Cornudella de Montsant.

Agora especial mesmo foi perceber o quanto me sinto em casa aqui, a simplicidade do “pueblo, os amigos compartilhando o mesmo fanatismo, as casas, o clima de escalada, os locais de pura paz, o infinito visual de pedras que rodeia cornudella de montsant”...  Chegando também tive uma surpresa enorme, na página do novo guia ilustrando o setor surreal da "la rambla" uma foto de alguém que passou por aqui na temporada passada...foram muitas "remadas"!!!Vlw Dani e Pete!!!
  

Capa do Guia.

"Guia de Tarragona, Siurana, El pati, El mon de sofia 8b+ - Foto: Pete O'donovan
... Retrato de uma história..."

Logo as primeiras semanas seguiram tranquilas, gastamos a primeira nos organizando em um "piso" para poder escalar melhor, descansar e etc. Faz uma grande diferença quando se compara em ficar em uma "furgo". As manhãs agora são um prazer, podendo fazer um café tranquilo em casa sem a necessidade de ir para algum lugar para se aquecer ou até se sentir acolhido perante o frio. Estar em uma casa faz com que se economize energia para poder escalar bem e ficar longas horas exposto as condições extremas de inverno.

Time BR.
 
Nos dias de extremo frio o murinho salva...
Sobre escalada passei o primeiro mês me adaptando e saindo de uma lesão graças a grande paciência e a apiterapia (http://www.apiterapia.com/introduccion.htm). A paciência é o fator mais importante para quem deseja ultrapassar o "limite particular estabelecido". Além dos trabalhos cotidianos (Fisioterapia, massagens, contraste, "finger terapeutico" , muro...) e escaladas fáceis para voltar a ativa, começamos equipar um provável 9a/+ fr (11c/12a) no setor "can piqui pugui" que assim foi graduado por Dani Andrada. Foi incrível poder ver os movimentos que existiam em mente serem solucionados com certa dificuldade. É realmente difícil e ainda mais sendo bem "bouderistica" a linha, aliás todas as vias localizadas nesse setor tem essa característica...

Can piqui pugui
Provei a via e muitos movimentos nem pude executar e em outros pontos da via nem conseguia parar em pé. Sei que isso é normal quando provamos coisas muito além dos nossos limites; mas com o tempo tudo melhora e a cabeça abre, ao final as "passadas" parecem estar cada vez mais perto... Projeto é assim. 
Um começo "meio factível" de (7c+/8afr? de via) de 3 costuras, depois um boulder de 4 movimentos que imagino ser mais que v8/9 (7c)? e clipa uma costura, entra em outro boulder de 1 movimento que deve ser mais que v10/11(7c+/8a)? ...Um dinâmico daqueles saindo de 2 buracos e lançando a outro bem longe de "esquerda"... Clipa outra e entra em mais um boulder que pode ser v9?(parte que é bem difícil de apenas se manter na pedra e buscar outra agarra) e depois um final de resistência "factível" de 4 costuras (7cfr? de via) com "um passo" dinâmico e técnico no final da "placa"; clipa a cadena. Claro que para mim fica bem difícil executar as "sessões" mesmo separadas, mas tenho certeza que muitos escaladores de ponta conseguem enxergar de outra forma toda essa sequência que chega parecer impossível no primeiro "pega"...
Foi um presente encontrar essa linha, eu e Magi começamos na temporada de 2011/12, equipando e visualizando os pontos de proteção, mas não havíamos finalizado pois existia uma certa dúvida quando a facticidade da via. Foram necessários meses e investidas para então liberarmos a linha que agora pode ser a mais difícil de um dos setores mais clássicos de Siurana.
Enquanto isso encadenamos algumas vias do setor, alguns 7s, um 7c+ novo do Dani, um 8a+ clássico chamado "Gigololo" aberto nos anos 90 que é muito boa!! Mesmo contando com agarras cavadas a via é um clássico!!! Schen a "punto" de encadenar a "Renegoide" 8b+ , agora caindo em cima... "Tá quaseee..." E nas próximas semanas continuamos pelo setor provando outros clássicos do rock.




Parede Paraíso Perdido - Arboli
 
P3 Clássico - foto:Luis Cláudio "Pita".


Além de tudo estamos equipando um setor "novo" que apelido de "Pared Paraíso Perdido" (P3) em homenagem a parede que me mostrou, enchendo os olhos, o futuro que me esperava dentro da escalada. Foram incríveis as primeiras escaladas na mais prazerosa parede da Floresta da tijuca-RJ.
Não existe muita semelhança com a escalada mas com certeza existe uma "paz" em comum...
 



"Paraíso Perdido - Arboli"
O setor em Arbolí na verdade já estava aberto (trilha), mas devido ao grande trabalho (limpeza e sika para reforço) foi esquecido por muitos anos e inexplorado em sua maior extensão. Um verdadeiro Paraíso Perdido.

Setor visto do "can piqui pugui".
Magi visualizando as linhas.
Lu no meio da 1a via "Haga lo que quieras".





Depois de alguns dias começamos a frequenta-lo e junto com Pita e Lu estamos abrindo as primeiras "kinglines" do setor. Um "desplome" de uns 30o graus constante com uns 35 metros, no total de 16 chapas de pura resitência...
Parede virgem... linda!!!





Abrir vias é incrível mas ao mesmo momento é um delicado assunto nos dias de hoje, pois até onde podemos chegar/enxergar? Utilizar sika mesmo para proteger uma via, equipar setores que são "quase lisos" ao nosso ponto de vista vale realmente a pena??? Depois de vivenciar alguns momentos no Brasil e agora na Espanha ainda acho que o mais importante é escalar de fato, adquirir experiência, carga horária de "vôo", aumentar a biblioteca de movimentos e aguçar a visão... 

 Em alguns dias terminamos a 1a via no "p3" e com certeza estarei preparando um post sobre a conquista e escalada. "HAGA LO QUE QUIERAS" 8b+/c???... 

Boas escaladas e boas ondas... ;)










sábado, 29 de dezembro de 2012

Brasil Vertical - por Felipe Camargo

Para fechar 2012 com chave de ouro para a escalada brasileira, acaba de sair do forno o mais novo filme do escalador Felipe Camargo "Pikuira". Campeão brasileiro na modalidade boulder 2012, primeiro atleta do Brasil a escalar uma via cotada em 11c (9a fr), dentre diversos outros feitos, Felipe acaba de lançar o filme "Brasil Vertical" que apresenta as vias esportivas mais difíceis do país sendo escaladas por ele ao longo desse ano. Além de escalar, ele próprio produziu, filmou e editou o filme de forma independente com a ajuda da família, de amigos e de seus patrocinadores, mostrando mais um talento além da escalada.

Parabéns pela iniciativa e pelo ótimo trabalho!


segunda-feira, 10 de dezembro de 2012

Alinhamento de planetas

"Agora, chegou a hora! Parece ser o momento perfeito para pararmos tudo e repensarmos todas as nossas atitudes. Acho que chegou a verdadeiro momento de deixarmos tudo para trás, com consciência, resolvendo de uma vez todos nossos questionamentos. O tão esperado alinhamento de planetas, é agora, está acontecendo. Todas as histórias de "fim do mundo" ou "calendário maia" na verdade parecem ser essa "erupção" de sentimentos, "lembranças sólidas" que afloram, transformando nossa delicada e profunda alma, nosso verdadeiro ser. Deixo um pouco do meu sentimento, algo que encontrei em algumas páginas de um "presente", um livro. Como sempre fica meu "convite" para a escalada da vida, para mais uma de várias ascencões que estão por vir; e se não somos é hora de mudar. O momento chegou..."


Não me interessa como você ganha seu sustento
quero saber qual é o seu anseio
e se você assume sonhar em satisfazer o desejo ardente
do seu coração.
 
Não me interessa sua idade
quero saber se você se arriscará parecer idiota
por amor
pelo seu sonho
pela aventura de estar vivo.
 
Não me interessa quais planetas estão em quadratura
com a sua lua...
quero saber se você tocou o âmago da sua própria mágoa
se você se abriu para com as traições da vida
Ou se você secou e se fechou
no temor de mais sofrimento.
 
Quero saber se você é capaz de encarar a dor
minha ou sua
sem se mover para esconde-la
Apagá-la
ou consertá-la.
 
Quero saber se você sabe estar com alegria
minha ou sua
se você sabe dançar de maneira selvagem
sem nos advertir para que
sejamos cuidadosos
sejamos realistas
lembremos das limitações do ser humano.
 
Não me interessa se a história que você está me contado
é verdadeira
quero saber se você consegue
desapontar alguém
para ser verdadeiro com você mesmo
se você consegue suportar a acusação de traição
sem trair a sua própria alma
se você consegue ser desleal e portanto digno de confiança...
 
Quero saber se você consegue ver a beleza
mesmo quando não é bonita
todos os dias
e se você consegue brotar a sua própria vida a partir
da sua presença.
 
Quero saber se você consegue viver com o fracasso
seu e meu
e ainda assim estar à beira de um lago
e exclamar para o prateado da lua cheia
"Sim!"
 
Não me interessa
saber aonde você vive e quanto dinheiro tem
quero saber se você consegue levantar-se
após a noite de mágoa e desespero
exausto e machucado até os ossos
e fazer o que tem de ser feito para alimentar as crianças.
 
Não me interessa quem você conhece
ou como aconteceu de você estar aqui
quero saber se você permanecerá
em meio ao fogo
comigo
sem recuar...
 
Não me interessa aonde, o que ou com quem
você estudou
quero saber o que o sustenta
por dentro quando todo o resto se desfaz.
 
Quero saber se você consegue estar só
com você mesmo
e se você realmente gosta da sua companhia
nos momentos vazios...
 
 
"Convite - Ãsana e Lesões em Astãnga Yoga"
Matthew Vollmer

domingo, 9 de dezembro de 2012

Declaração da FEMERJ sobre acidente no Pão de Açucar

A Federação de Montanhismo do Estado do Rio de Janeiro (FEMERJ) vem pelo presente apresentar algumas informações relacionadas ao acidente fatal que ocorreu no dia 2 de dezembro de 2012, na via denominada CEPI, situada na face oeste do morro do Pão de Açúcar, que vitimou o escalador Bruno Mendes da Silva.
A Via CEPI foi conquistada em 1952, quando as vias eram predominantemente equipadas com cabo de aço: as “vias ferrata”. As aberturas de vias ferratas eram comum até década de 60, quando os equipamentos disponíveis limitavam a escalada livre às fendas mais largas e chaminés. Desta forma, as vias em cabo de aço eram a opção para os paredões rochosos. Com o desenvolvimento dos equipamentos e da técnica de escalada em livre sobre a rocha, as conquistas em cabo de aço vão sendo abandonadas e as vias ferratas começaram a ser substituídas já na década de 60. A via CEPI segue um trajeto de cerca de 220m de extensão, tendo sido a terceira via conquistada que dá acesso ao cume do Pão de Açúcar, e acumula a maior quantidade de acidentes em vias de escalada deste morro. O primeiro acidente foi registrado ainda em 1952, com dois óbitos.
A menor exigência técnica de uma via ferrata acaba atraindo outro perfil de frequentadores para a via CEPI, propiciando a ascensão de pessoas muitas vezes sem experiência e/ou equipamento adequado que se aventuravam por essa via, aproveitando-se da falsa sensação de segurança que o cabo proporciona, essa situação acabou levando a ocorrência de acidentes fatais. Esta situação motivou, no final da década de 90, a substituição dos primeiros sete metros do cabo de aço por um artificial fixo, obrigando, assim, o uso de equipamento de segurança e conhecimento técnico por aqueles que subissem por esta via. Essa ação fez com que os acidentes diminuíssem drasticamente, não havendo registro de acidentes fatais até o último domingo.
Assim como qualquer via de escalada, o CEPI (“via ferrata”) também exige uma manutenção constante – manutenção esta realizada pela comunidade de escaladores, assim como em outras partes do mundo. A última manutenção do CEPI que se tem registro foi em 2011 e, previamente, em 2009, quando foi trocado o segmento de cabo de aço dos últimos trechos, incluindo o trecho horizontal do último esticão.
Com o intuito de entender o que aconteceu e poder prevenir próximos acidentes similares, a FEMERJ está analisando os fatos ocorridos, e as melhores informações disponíveis até o momento são relatadas abaixo.
O acidente que culminou com o falecimento do escalador Bruno Mendes da Silva ocorreu entre as 13:00 e 14:00hs do dia 2 de dezembro de 2012. Bruno havia escalado com Andrea Pereira a via dos Italianos, também na face oeste do Pão de Açúcar, e continuado pelo cabo de aço da via CEPI com a intenção de chegar ao cume da montanha. Pelo que foi relatado por conhecidos dos escaladores, ambos possuíam treinamento em escalada e conhecimento de seus procedimentos básicos de segurança. Quando faltavam menos de 50 metros para o final da escalada, o cabo de aço que Bruno estava escalando sofreu uma ruptura, e ele caiu todo o comprimento da corda, cerca de 70 metros (comprimento ainda não confirmado).
No próprio dia 2 de dezembro, uma equipe da FEMERJ composta por dois guias da Associação de Guias, Instrutores e Profissionais de Escalada do Estado do Rio de Janeiro (AGUIPERJ), fez uma inspeção no local e constatou que houve de fato uma ruptura do cabo de aço da via CEPI, no início da última horizontal, a menos de 50 metros do cume. Neste trecho, o cabo é mais fino e estava coberto com uma mangueira plástica, sendo que a última manutenção ali foi realizada em outubro de 2009.
Segundo relato de Andrea Pereira, ela estava em um grampo abaixo do início da horizontal do cabo de aço. Bruno escalou esse trecho, se utilizando do cabo de aço e sem costurar nenhum grampo, nem o direcional na parada, com a segurança montada com um freio ATC. Apesar de um gri-gri ter sido utilizado como método de segurança na via dos Italianos, no CEPI, Bruno havia solicitado Andrea para utilizar o ATC para que agilizasse a segurança. Ao chegar no trecho em horizontal, entre 4 a 6 metros acima de Andrea, o cabo de aço se rompeu e Bruno caiu, em fator dois. Cabe ressaltar que, segundo relatos, Bruno pesava pelo menos 90 kg e a corda utilizada era nova, sendo que era a 2a vez que estava sendo utilizada. O freio – ATC – que estava no baudrier de Andrea se deslocou para baixo, seguindo o trajeto da queda. Com o movimento e o impacto da queda de fator dois, a corda correu no ATC, queimando a mão de Andrea. Bruno, então, caiu o comprimento total da corda.
No dia 05/12, dois escaladores, sendo um representante da FEMERJ, deram apoio à vistoria de perícia da Polícia Civil no local do acidente, quando foi retirado o trecho do cabo onde houve a ruptura para análise e foi realizada a interdição formal do CEPI, ambos pela própria Polícia. Foi colocado, também pela Polícia, um aviso na base da via sobre a interdição.
A FEMERJ solicita que não se escale a via CEPI até a liberação da mesma pela polícia. Após a liberação, recomendamos que se redobre a atenção para a avaliação do cabo, conforme os alertas existentes desde 2009 sobre o assunto no site oficial da federação (http://femerj.org/noticias/noticias/183-femerj-fixa-placas-de-alerta-na-via-cepi-e-na-face-norte-do-morro-da-urca) e que se utilize procedimentos de escalada em livre para segurança nesta escalada, costurando a corda. Lembramos que cabe a cada escalador avaliar o estado das proteções fixas (chapeletas, grampos, cabos de aço, etc.) ao escalar, bem como realizar treinamentos constantes de segurança.
A FEMERJ continuará acompanhando o desdobramento dos acontecimentos e, como usualmente, se encontra a disposição para qualquer esclarecimento a respeito das práticas do montanhismo. Destacamos que a segurança em escalada é ditada, largamente, pela formação do escalador e sua experiência. Porém, ressalta-se que todos, independente da formação e experiência, estão sujeitos a acidentes, pois a escalada em rocha é uma atividade com riscos inerentes e pode ocasionar lesões, incluindo a morte. Seus participantes devem ter conhecimento dos riscos envolvidos, minimizá-los e, por fim, aceitá-los, sendo responsáveis por suas próprias escolhas, ações, decisões e, consequentemente, sua segurança.
Lembramos que cada escalador e montanhista deve ser responsável por escolher seus próprios desafios e seu nível de comprometimento de acordo com sua experiência e capacidade técnica, tornando-se responsável por sua própria segurança. Esse é um dos princípios mais intrínsecos ao montanhismo e está declarado no documento Princípios e Valores do Montanhismo Brasileiro (CBME, 2012, que pode ser visualizado e baixado de:http://femerj.org/sobre-a-femerj/nosso-posicionamento/principios-e-valores-do-montanhismo-brasileiro.
Concluímos enviando nossas condolências e pesares à família de Bruno Mendes da Silva e se solidarizando com a dor de Andrea Pereira nesse momento tão difícil.
DIRETORIA DA FEMERJ

Fonte:
FEMERJ e Focanoclimb.com

sexta-feira, 16 de novembro de 2012

A busca fanática...


Vem chegando o verão, vem chegando o inverno. Em poucos dias chega a tão esperada "temporada" de escalada em rocha. No hemisfério norte impacientemente as pessoas esperam desde o inverno passado boas temperaturas para provar seus incríveis projetos. Aqui no hemisfério sul não é diferente, neste exato momento uma multidão de pessoas migra para o extremo sul do continente a fim de encontrar "janelas" para suas exigentes "investidas".

...A ansiedade e euforia tomam conta...

É nesse período que a natureza colabora com a escalada, eu diria, é nesse período que ela permite que nós humanos sejamos capazes de vivenciar momentos únicos em ambientes extremos de montanha, seja atingindo um cume no desejável Fitz Roy ou até mesmo clipando um final de "batalha" que parece não ter fim nas paredes perfeitas da Catalunia. Estes locais carregam uma energia incrível de superação, locais de verdadeiras "batalhas" pessoais aonde todo o "cosmo" parece desfrutar, brincando com a infantilidade humana em querer controlar toda a “natureza”. Como nós relacionamos e como vivenciamos estes "momentos" ou "janelas" de bons ventos e oportunidades faz toda a diferença, a energia com que se "entra" em campo é quase tudo.

...Olhar para a parede muitas vezes é mais importante que olhar para a trilha, "nem é tão alto assim"... 

Cabeça erguida e confiança no verdadeiro "guia" traz a calma e paz necessária para poder junto com a natureza fazer a tão especial "mágica" de conquistar “cumes” de consciência. E o mais engrandecedor é perceber enquanto tudo acontece, que somos apenas míseros espectadores. Tudo acontece muito rápido...

Desde que voltei da Europa (2a EuroTrip) vinha depositando toda a energia em encontrar algum "caminho" para escalada seguindo a linha em divulgar e explorar novas escaladas pelo País. O blog passou a ser uma grande ferramenta atingindo pessoas de vários países, divulgando a escalada local. O Biê se concentrava no projeto “MONTANHISTAS” para o canal Off desde o começo do ano (2012) em companhia do Hugo ( Projeto este que resulta no primeiro programa para grande massa do país - TV ) atingindo o público com imagens surreais das escaladas e vôos nas montanhas do estado do Rio de Janeiro. Nesse período acabei direcionado a passar um tempo com minha família em busca de trabalho para novamente economizar grana para futuros projetos e acabei morando um tempo em Brasília, claro que também aprendendo um pouco mais sobre a arte de bouder com quem sabe do assunto...(www.pedroraphaelclimb.blogspot.com 

Por fim alguns "vislumbres" sobre conquistas de altas paredes no Brasil somado com a idéia de não acreditar no “sistema” faz recomeçar outra “espiral” em direção à verdadeira fonte de alimento, o"climb". Os caminhos vão seguindo, se cruzam e voltam ao mesmo ponto. A "cordada" se separa mais uma vez em busca de mais conhecimento; Biê segue para o começo de uma nova temporada de “MONTANHISTAS” na Argentina e sigo então para mais uma temporada nos paredões de continuidade da Espanha. Quem sabe estamos indo em direção aos reais valores de cada um e que ao fim se completarão. Tudo está perfeito, a temporada, a temperatura, as datas, as duplas, os lugares, as vias... 

Desejo FORÇA a todos nós montanhistas que buscando nossos “reflexos” em cada “passada” e nossas “verdades” em cada “cume”, encontramos a pura essência de nossas vidas...  

“Tocaaa”...

......http://www.youtube.com/watch?v=HMIwScW0Fdc


 

domingo, 11 de novembro de 2012

Repetição da via "Canino Cascudo" na Pedra Hime


Localizada no Parque Estadual da Pedra Branca, em Jacarepaguá, a Pedra Hime se destaca ao longe devido a sua verticalidade, sendo a principal característica da face que é situada a via "Canino Cascudo".  A formação da Pedra Hime lembra um pouco o Pão de Açúcar, algumas características da via remetem as escaladas do Totem, principalmente pela inclinação que em alguns pontos chegam a atingir ângulos negativos.

Bernardo Biê na primeira enfiada da via "Canino Cascudo" - foto: Felipe Dallorto.

Até onde se sabe essa é uma via muito pouco frequentada, talvez poucos escaladores se interessaram em repeti-la. Isso era visível devido a quantidade de teias de aranha espalhadas pela via. Por esse motivo decidimos fazer um croqui detalhado para que outros escaladores se motivem a frequentar essa parede alucinante.

Bernardo Biê na terceira enfiada da via "Canino Cascudo" - foto: Felipe Dallorto.

Começamos nossa empreitada partindo de ônibus da Barra até o centro da Taquara onde pegamos uma van até a comunidade da Ilha do Sapo, que fica nos arredores da Pedra Hime. De lá demos início a caminhada que leva entorno de 40 minutos até a base da via. A trilha é bem sinalizada com trechos que passaram por recente manejo e manutenção pelos integrantes da U.E.J. (União dos Escaladores de Jacarepaguá.), mesmo assim há trechos onde a trilha parece fechar um pouco dificultando a orientação na parte final.

Felipe Dallorto na quarta enfiada da via "Canino Cascudo" - foto: Bernardo Biê.

A via começa ao lado esquerdo de uma árvore e segue muito bem protegida por grampos de meia polegada, o que torna a navegação bem óbvia. O primeiro lance para proteger o primeiro grampo exige atenção, além de ser o crux da enfiada (A0/8a), desse ponto em diante a via segue por um lindo diedro graduado em 7c. A segunda enfiada é bem curta, da parada não é possível ver o segundo grampo porque ele está escondido, o terceiro grampo fica muito a esquerda fora da linha da via, obrigando o escalador a sair da linha das agarras mais sólidas para proteger o lance. Esse ponto requer uma boa leitura e bastante atenção ao pêndulo ocasionado por uma possível queda.

Felipe Dallorto na horizontal da quarta enfiada da via "Canino Cascudo" - foto: Bernardo Biê.

Na terceira enfiada a via perde inclinação seguindo por uma incrível canaleta amarelada. A medida que o escalador ganha altura as agarras vão se tornando menos sólidas e nesse ponto já é possível usar proteções móveis caso julgue necessário. Na quarta enfiada a parede volta a ganhar inclinação, chegando a ficar negativa depois da sexta proteção, onde começa a sequência do segundo crux da via cotado em 7b. Vale ressaltar que para proteger o primeiro grampo dessa enfiada é preciso passar por um lance desconfortável.

Felipe Dallorto no final da quinta enfiada da via "Canino Cascudo" - foto: Bernardo Biê.

Apesar de não parecer, na quinta enfiada a via alivia a medida que o escalador avança em direção ao cume, sendo possível a utilização de proteções móveis em alguns trechos, principalmente antes da horizontal. As últimas enfiadas são curtas, existindo a possibilidade de emenda-las até o cume, já que lá tem uma parada dupla que é o final da via "Canino Sampaio".

Bernardo Biê e Felipe Dallorto no cume da Pedra Hime, Jacarepaguá.

Do cume a descida é feita por trilha. Caso seja necessário rapelar pela via é bom ficar atento as horizontais. O melhor horário para começar a escalar é a partir de 13h, que é quando a via começa a ficar na sombra. O tempo de duração pode variar de acordo com a velocidade da dupla de escaladores. Apesar da via ser muito bem protegida (o que facilita a orientação), vale ficar atento em caso de queda, principalmente na primeira enfiada onde existe a eminência de cair no chão antes de proteger o primeiro grampo, e na quarta enfiada onde o primeiro lance é esquisito em agarras duvidosas.

Croqui da via "Canino Cascudo" na Pedra Hime, Jacarepaguá.

O livro de cume da Pedra Hime fica escondido embaixo de uma laca invertida, perto da parada dupla que sinaliza o final da via "Canino Sampaio".




 Por Bernardo Biê