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quarta-feira, 4 de março de 2009

Pela Zoorapa - 1ª Parte

Ao tomar conhecimento deste blog, lançado pelo meu camarada Bernardo Biê e ler seu artigo sobre a trip para a Europa senti vontade de também compartilhar algumas das muitas experiências que venho tendo ao longo deste ano, o qual decidi me dedicar principalmente a escalada. Minha viagem começa efetivamente, como já comentado pelo Bie no dia primeiro de maio, coincidentemente dia do trabalhador, coisa que venho tentando deixar de ser desde dezembro de 2007, quando esta viagem começa a ser idealizada. Aos 27 anos formado em ciências sociais e trabalhando com projetos sociais voltados a crianças e jovens de populações carentes vinha crescendo minha insatisfação com minha vida profissional e a gana de me dedicar à escalada além dos fins de semana crescia a cada momento. No meu aniversário de 28 anos, após participar de mais uma entediante reunião de trabalho que não tratava dos reais problemas a serem resolvidos segui para a sede da minha ONG e pedi que me demitissem como presente de aniversário. A partir de então começava o planejamento de viajar para Europa com o troco que eu tinha juntado e a indenização trabalhista pelos últimos 2 anos de trabalho. A principio éramos 4: eu, Bernardo Biê, Lucas Jah Marques e Rafael Bebezao que dizia que quando um de nós comprássemos a passagem ele compraria na seqüência. O Lucas sem falar com ninguém comprou para Paris, o Biê foi o primeiro de nós a vir, com destino a Itália, eu resolvi encontrá-lo, pois tinha bastante vontade de conhecer este país e o Bebezao eu to esperando até hoje rsrsrsrs. Como nunca fui muito dedicado aos treinos em muros e até o ano de 2006 só havia escalado no rio e em Niterói minha escalada esportiva era limitada a malhar vias, conseguindo encadenar ate um 9c brasileiro, mas apanhando de muito oitavo grau fora de casa e com o grau de escalada a vista limitado a alguns 7a. Como já contado pelo Bie neste blog nessa viagem escalamos buscando conhecer o maior numero de metros de rocha possível e a preocupação com cadenas em si ficava em segundo plano. Só de estar num pico como Arco já era fantástico, conhecendo setores incríveis e vias alucinantes. Após esse período seguimos para Céüse, onde se encontra a famosa Realization com o objetivo de encontrar o Lucas.... não sei explicar o porque mas Céüse nunca me chamou muito, todos com quem falávamos que iríamos passar pelo menos 2 semanas lá diziam que era sofrido, falavam da caminhada e eram poucos que nos incentivávamos.
 Biê e Caio na Trilha para Ceüse
Chegando em Gap a chuva não dava trégua, e assim foi durante muitos dias, lembro da primeira vez que cheguei na base da pedra e ...... não achei nada demais.... havia visto setores muito mais interessantes em Arco com um esforço muito menor, ao contrário percebia o Bie, que a cada dia que passava se encantava mais com o pico. Após 15 dias me sentindo em uma expedição patagônica, um casal de americanos me ofereceu carona para Rodellar, pico que planejava ir após a volta do Biê para o Brasil. Apesar da companhia dos dois não ser exatamente agradável e de me sentir mal em deixar meu camarada largado sozinho lá no camping (embora tenhamos chegado ao consenso de que era uma boa oportunidade para eu ir para a Espanha e que ele no meu lugar faria o mesmo) decidi subir com chuva na manhã seguinte resgatar as costuras de uma via que entrei um par de dias e depois molhou, e no caminho de volta o sol já nos aquecia com seus raios luminosos... acho q eu e Céüse realmente não combinamos....
                           Lucas "Jah" e Biê em Ceüse
No dia seguinte, chegando em Rodellar já me sentia outra pessoa. Sol, clima ameno e após uma caminhada de 10min chegava a um cânion difícil de descrever sem dizer que parece um parque temático elaborado para escaladores. No primeiro momento à base do primeiro setor que conhecemos apareceu a Petra, uma escaladora da República Tcheca que estava trabalhando em um dos campings do point e estava sem parceria para escalar. Me deu segurança em um 6c+(7b BR) e logrei êxito na primeira cadena a vista nesse grau, agora sim sentia que estava no lugar certo, embora a falta de parceria fosse um contra.
Como nem tudo são flores, após 10 dias em Rodellar a preocupação com minha situação financeira ia tomando grande espaço na minha mente e após tentar trabalhar no camping sem êxito, fui a Barcelona onde graças ao Hugo que me botou em contato com seu irmão Mauro comecei a trabalhar como recepcionista noturno no hostel que ele gerencia... iniciava a era das trevas para minha escalada.... vida 100% noturna, alimentação 100% trash, enfim tudo que eu queria evitar veio ao meu encontro. Mas não posso reclamar, pois a galera do hostel era super gente boa e eu me diverti muito durante os 3 meses que passei lá.
Não tardou e Jah bateu a minha porta, vindo de uma carona direta de Céüse para a porta da minha casa, trazendo uns camarões muito apetitosos que ganhara de presente. Enquanto apreciávamos um destes camarões ele me contava das escaladas com o Biê, da galera de Gap e ia me lembrando o que eu vim fazer aqui: Escalar!!!!
                                   Caio e Lucas em Monsant

Pela Zoorapa - 2ª Parte

Passei a planejar minha volta para a rocha, mais especificamente para Rodellar. Entrei em contato com a Janaína Xavier (Jana) e marquei minha saída do hostel para o dia 11 de setembro quando o Lucas já teria voltado de uma viagem ao Boom Festival em Portugal e, graças a Jana teríamos uma carona para Rodellar com o Joseva, escalador local.
De volta ao paraíso paguei todos os meus pecados cometidos em Barcelona (que acreditem, não foram poucos) com toda a gana do mundo consegui encadenar um 6b(6º br) no limite, ao provar um 6c(7a br) na seqüência sofri para isolar os lances.... mas não me deixei desanimar e apenas 2 semanas depois saiu o meu primeiro 7a+ ( 8a BR)a vista – um dos objetivos da viagem.
Passamos dois meses de muitas alegrias e diversão no pico, além de um reforço no time brazuca: Ricardo Shein, Sidney Shimitz e sua namorada Gizele chegaram e ao todo somávamos 7 brasileiros em Rodellar, pois além desses 6 tem a Carol que mora lá. Com o Fim do Outono veio a chuva e as chorreiras começaram a molhar, mesmo não querendo se despedir do pico fomos obrigados, pois não existe transporte público e todos os escaladores estavam vazando, temendo ficar sem uma carona fomos praticamente os últimos a sair de lá. Agora o destino era Siurana.Após minhas experiências anteriores percebi q a hospedagem era o que mais pesava no bolso e parti p Siurana decidido a não ter esse gasto, investi uma grana num bom saco de dormir e um bom casaco e fui sem sequer levar uma barraca, estava decidido a bivacar no pico.
                                 Caio e Lucas no abrigo
Siurana é mais um lugar fantástico, muitos setores e vias, embora que para alguns deles seja recomendável ter um carro é possível aproveitar bastante do local sem veículo mesmo. Após alguns dias fomos ao camping procurar trabalho e conseguimos ter hospedagem gratuita em troca de recolher o lixo (coisa que nos demandava cerca de 20 min por dia, verdadeira moleza). Apesar do frio intenso (abaixo de zero, chegando a -5 ou -6 de madrugada) não fiquei desconfortável e a escalada rendia, embora ainda não tivesse buscando vias muito duras e mantendo a idéia de melhorar minha escalada a vista, provei um 7c (9a br) e esse tive ganas de trabalhar mais. Minha namorada estava para chegar do Brasil em Barcelona e após 4 tentativas na via fui buscá-la e passei 5 dias na babilônia, mas a via não me saia da cabeça. Quando voltei aqueci em um 6a com a Cris e fui para minha via que, não sei se por causa dos dias de descanso ou pelo animo do amor me saiu na quinta tentativa, coisa que para mim era inédita, pois nunca havia feito uma via desse grau em menos de 20 (?) pegues. Uma semana mais de friaca invernal em Siurana e era momento de buscar um pico mais confortável, Lucas decidiu voltar ao Brasil, Ricardo ficou por lá mesmo, o Sid e a Giz foram descendo para o Sul parando pelo caminho e o mesmo fez a Jana, enquanto eu e Cris fomos direto para o El Chorro, um dos principais picos de escalada do inverno europeu.
Lá chegando fomos ao camping e a chuva castigava. O camping não oferece nenhuma estrutura e não nos restava muito o que fazer além de comer, namorar e jogar cartas, quando o tempo dava uma trégua buscávamos algum lugar seco para escalar. Nos primeiros dias tivemos uma má impressão do local, os setores não nos agradavam e as linhas aparentemente mais interessantes estavam molhadas. Estávamos a beira da depressão quando resolvemos ir conhecer o Maquinódomo, o setor mais famoso e distante, ficando a aproximadamente 1h de caminhada da cidade de El Chorro. Lá chegando encontramos o lugar onde queríamos estar, várias lindas linhas em negativo constante, com chorreiras alucinantes e lugares para bivacar, entre os quais o que mais chamava a atenção era uma grutinha equipada para se morar, com mesa, lugar para se cozinhar com fogo e acreditem: até um sofá! Obviamente havia gente neste último local, mas não desanimamos e planejamos ir a Málaga fazer compras e subir p ficar no Maquinódromo esperando que os ingleses que habitavam a gruta não permanecessem por lá muito tempo.
Caio e Cris na caverna em Maquinodromo
Os três dias que se seguiram foram de muita água por parte de São Pedro e concordamos que no quarto dia subiríamos logo que amanhecesse,na chuva ou não, pois acreditávamos que talvez os dois tivessem desistido de ficar lá com o mal tempo. Acordamos com os passarinhos e para nossa surpresa fazia um lindo dia de sol, subimos carregados como duas mulas, com equipo de escalada e de camping, comida e roupas e o esforço foi recompensado, ao chegar a gruta era toda nossa. Havia um fonte de água a 15min e de duas em duas semanas tínhamos que ir a Málaga para fazer compras, o resto do tempo era escalar, escalar e escalar!!!  Após um mês de El Chorro minha amada teve que partir para Cadiz onde esta cursando um mestrado mas a Jana subiu p cueva onde ficamos mais um mês, e neste momento era chegada a hora de escolher projetos fortes e tentar, tentar e tentar a muerte!!! Após encadenar nossos primeiros projetos começamos a entrar na Lourdes, uma linda via de 30m, graduada em 8a(9c br), recheada de chorreiras e em um negativo (bem negativo) constante. Um clássico, não só pela linha em si, mas também por ser o primeiro 8a da Espanha. Infelizmente, uma vez mais, o clima não colaborou e após dias de chuva torrencial a via estava completamente molhada... o psicológico ficou abalado e era difícil de se motivar, decidimos que nossa temporada no El Chorro estava terminada.
Agora descanso um pouco em Cadiz, junto do meu amor e no carnaval vamos a pico chamado San Bartolo, famoso por seus boulders em arenito, de lá creio que retorno para Siurana e Rodellar, mas como dizem: o futuro a Deus pertence. Espero que ele tenha reservado um futuro de muito climb p mim rsrsrsrs
Abaixo seguem informações que considero úteis para aqueles que queiram se aventurar por essas bandas:
Arco: Lindo vale, lotado de vias e setores, porém o acesso a estes sem veículo é bastante limitado. Quanto a lugar para ficar creio que é possível bivaquear em alguns setores, porém a prática não é comum e creio que não é vista com bons olhos pelos escaladores locais, acredito que o melhor seja buscar o camping ou pousadas. A melhor temporada creio que seja entre maio e inicio de outubro.
  Arco - Pueblo
Céüse: Falésia fantástica com 3km de rocha ininterrupta, é possível chegar lá sem carro a partir de Gap pedindo carona, coisa bastante comum e não muito difícil de se conseguir. O que desanima é a trilha bastante puxada, mas só é necessário subir com o equipo um vez, praticamente todo mundo deixa a mochila na base da falésia. É possível bivaquear lá em cima, mas não é permitido nem recomendável. Os preços do camping são bastante acessíveis (pergunte pelo trailler!!!).
 Ceüse - La Cascade
Rodellar: Nas palavras do meu amigo Juan: “Rodellar és demasiado perfecto...” Definitivamente o melhor pico que conheci. O acesso é um pouco complicado sem carro, deve-se ir até Barbastro e de lá tentar uma carona para não ter que caminhar 18km. A estrada é pouco movimentada pois termina em Rodellar. Para ficar recomendo o Kalandraka, refúgio que cobra 6,50eu a diária e oferece quartos comunitários para 4 ou 8 pessoas, existem também dois campings com bons serviços, sendo que o El Puente é um pouco melhor, porém recomendado para os que estão de carro. É possível bivacar ou realizar camping selvagem mas cuidado para não ser pego pela guarda civil, que segundo reza a lenda toma todo o equipo de camping do cidadão (saco de dormir principalmente). A melhor temporada é setembro e outubro, temperatura amena e muitas frutinhas p colher nos dias de descanso.
 Amoras em época de colheita
Siurana: Pico lindo que pode ser acessado a partir de Barcelona com um trem para Reus e na seqüência um ônibus para Cornudellia. De lá pode caminhar 7km pela estrada até chegar em Siurana, aventurar-se a encontrar a trilha que corta bastante caminho ou tentar uma carona. Para ficar existe um refúgio na cidade e o camping de Siurana, onde os donos são bastante amistosos e tem um carinho especial pelos brasileiros. Também é possível bivacar por lá, procure com cuidado que encontrará bons locais, mas muito cuidado se for fazer fogo, os locais não aprovam a realização de fogueiras devido às características da vegetação local. Se puder tente visitar MontSant, setor de conglomerado de buracos com vias verticais e negativas que realmente vale a pena. A melhor época para se visitar é a primavera e o outono pois no verão é muito quente e no inverno muito frio.
 
                                                                        Siuranella vista das Ventanas
El Chorro: O pico para se ir no inverno. Dizem que normalmente não chove muito e chega a fazer calor (coisa que ocorreu 3 ou 4 dias dos 2 meses que passei lá, mas parece que este ano foi bastante atípico). O acesso é direto por trem, de Málaga a El Chorro. Existem 2 ou 3 refúgios cujos preços giram em torno de 9eu e um camping que além de caro não oferece nada além de banheiro, realmente não é um lugar recomendável. O mais interessante do pico (além da escalada é claro) é que o bivac e o camping selvagem são totalmente tolerados e normais. Existem várias cuevas (grutas) preparadas para se habitar (com as paredes emboçadas e semi-mobiliadas), recomenda-se chegar no início de dezembro que não deverá haver dificuldades de conseguir uma destas. Caso chegue tarde não faltam lugares para realização do camping selvagem, o mais comum é ao redor da igrejinha da cidade. Em breve devo enviar mais relatos do climb de San Bartolo, até lá.
                                                          El Chorro - Maquinodromo
Por Caio Granola

terça-feira, 10 de fevereiro de 2009

Retrocedendo no tempo

Aproveitando o gancho, gostaria de voltar um pouco no tempo, mais precisamente dia 1º de Abril de 2008, para repassar a última viagem que fiz para Europa, mas desta vez exclusivament
e para subir as preda tudo. Tentei de várias formas enxugar o máximo o texto, mas ao final desisti porque já tem muitos detalhes que me fogem a memória e com isso a história se perde e a linha de pensamentos fica vaga.
Prefácil

Muito difícil para mim conseguir contar todos os fatos irrelevantes de modo objetivo e direto, peço desculpas pela falta de habilidade para tal. 
A princípio parece uma leitura longa, mas em menos de 10 minutos acaba.
Itália onde tudo começou

Foi no dia 1 de abril de 2008 que desembarquei em Milão, Itália, para 3 meses de escalada pelo velho continente. O objetivo era escalar na Itália, Suiça e França. Desde então procurei um ginásio de escalada para iniciar meus treinamentos por 3 semanas, antes da chegada do meu amigo Caio Granola. Nessas 3 semanas arduamente treinei, visitei alguns locais pela região (Valssassina e Lecco) e fiz o reconhecimento do primero point da trip, a cidade de Arco na região de Trentino, nordeste do País, conhecida como Valle di Sarca e que fica próximo ao famoso Lago di Garda Nord, o lado norte do lago. 
As cidades ficam aproximadamente a 1km de distância uma da outra como se fossem bairros. A cidade de Arco gira entorno da escalada, em bares, restaurantes, sorveterias e nas inúmeras lojas de artigos para escalada, vê-se fotos, posters, autógrafos e tudo que você pode imaginar de escalada. Assim como as cidades mais próximas ao lago giram entorno dos esportes aquáticos e a vela, e as cidades também próximas a região montanhosa gira entorno do ciclismo, montanhismo etc.
Ao chegar em Arco fui imediatamente acolhido por um casal de brazucas que moram por lá e que só tenho a agradecer, por tudo que fizeram por mim e pelo tanto que facilitaram|agilizaram a logistica da viagem. Dani e Birão me apresentaram de cara as falésias mais doidas que conheci em toda minha vida. Por ser um vale o local é lotado de preda pra todos os lados, lembrando inclusive o vale de Yosemite, CA. Mais de 100 falésias, picos de até 4000mtrs de altura e paredes de mais de 1000mtrs de escalada compõe a paisagem, além do imenso Lago di Garda, isso tudo num raio de menos de 20km de distância.

Após esses 3 dias retornei a Milão com toda a logística pronta para permanecer escalando por lá até dia 20 de maio, já que meu camarada chegava apenas no dia 1 do mês em questão. E foi o que quase aconteceu, pois tivemos que encurtar nossa permanência em 2 dias, pois tinhamos que ir para França pelo menos descançados, já que foram 18 dias intensos com no máximo de dois dias seguidos de descanso, escalando freneticamente sem parar o dia todo, a maior parte avistando e flechando, poucas vias foram tentadas mais de 3 vezes, afinal, são em média 300 vias por falésia. Ao final desse periodo percebi que não foi a melhor estratégia, porém a fissura falava mais alto. 
França
De Arco, fomos para Milão deixar aquilo que chamavamos de "carro" (um Smart) e embarcamos de trem para uma cidade do sul da França chamada Gap. 
Ao chegarmos em Gap, tivemos uma surpresa não muito animadora. O tempo estava horrível e não havia ônibus para nosso próximo destino, o vilarejo mais próximo de Ceüse, chamado Sigoyer, que fica a 5 km do famoso camping Les Guerin localizado ao pé da montanha, e a 20km de distância da cidade que estavamos. Tivemos que pegar um taxi e acabamos sentindo no bolso o peso da moeda local, o Euro.

Passado a primeira impressão, chegamos ao camping e nos instalamos. Tinhamos a certeza de que um outro amigo nosso, Lucas "Jah" como é conhecido, estava nos aguardando lá conforme o combinado ainda no Brasil, porém após algumas abordagens aos colegas de camping descobrimos que ele estava acampado na base da via "Biographie" mas conhecida como "Realization". Vale lembrar que a trilha de acesso a incrível falésia fica a 1h do camping, já que a própria se encontra no alto da montanha e a 2000mtrs de altura. Ao chegarmos para nosso primeiro dia (dos 20 que tinhamos planejado) de escaladas em Ceüse, procuramos mas não o encontramos. Com todo aquele estímulo que a atmosfera do local magicamente nos afeta, não procuramos muito e começamos aquilo que fomos fazer lá, escalar.
Com um calcáreo aderente de cores azul e laranja, feito de agarras peculiares e, digamos, "internas" como se fossem bolsos para dentro da preda, de forma a dificultar a leitura das linhas e abrir margem para a imaginação mental e expressão corporal, textura e aderência nunca imaginadas antes ainda mais se tratando de calcáreo, Ceüse imediatamente modificou nossos conceitos de escalada de um modo geral. Era distinto de tudo que já havia escalado ou ouvido falar, era paradoxal em vários sentidos, era liso e abrasivo ao mesmo tempo, era cansativo e confortável, haviam diversos graus de inclinação e muitos setores com características diferentes e exposições diferentes as determinadas condições climáticas. Tudo era envolvente e não era exatamente como esperávamos que fosse, até o incansável coo-coo (famoso pássaro dos relógios de madeira antigos), que aos montes residem nas árvores ao longo da montanha, atraia nossa antenção durante os momentos de silêncio e reflexão a que fomos submetidos, fosse durante a trilha ou durante as curtas noites de sono e frio.
Após os 3 primeiros dias em Ceüse, chovendo sem para e fazendo um frio incomum para a estação da primavera, eis que encontramos nosso amigo "Jah" vindo de Gap e cheio de estórias para contar. Ficamos umas horas em volta da fogueira colocando os assuntos e novidades em dia até uma amiga dele vir busca-lo, pois ele estava dormindo na casa desses franceses e estava indo para um festival de música eletrônica na Suiça para trabalhar com terapias alternativas por 10 dias, ofício que lhe rendera uns trocados.

Nesse tempo,  a chuva e o frio não deram trégua. Escalamos o máximo que podiamos, porém o clima não colaborava e já estávamos desanimados. Em 15 dias escalamos apenas 5 e nesse tempo conhecemos muitos escaladores que inham e vinham trazendo notícias do clima e dando caronas para o reabastecimento de alimentos. Um belo dia descobrimos que no camping haviam pequenos trailers que eram alugados por um pouco mais de 1 euro de diferença do que pagávamos para acampar, e isso foi uma injeção de ânimo para continuar fazendo a trilha todos os dias com energia suficiente para escalar bem, pois aos poucos a trilha de acesso a falésia ia minando nossas energias, atribuída as péssimas noites de sono (noites essas que duravam no máximo 4h devido a estação do ano em que o dia fica mais longo e a noite mais curta), ao frio intenso e a falta de nutrientes com a má alimentação ao longo da trip. Para mim em particular foi muito difícil manter a fina camada de gordura existente em meu corpo esguio, o que culminou numa perda excessiva de peso e no aumento da sensação de frio (chegava a graus negativos), porém ainda sim me sentia forte e motivado.
Depois dos primeiros 10 dias estávamos totalmente adaptados as novas condições, foi quando surgiu o convite de nossos amigos franceses para passarmos um fim de semana em Monpellier na casa de nossa amiga Judith. Foi um fim de semana em que a escalada quase ficou esquecida apesar de pouco ter escalado até aquele momento, sonhava todas as noites (quando conseguia dormir) com os movimento das vias que me aguardavam lá em cima, no topo da montanha. No retorno ao camping tive uma baixa na equipe, ou melhor, na dupla. Caio havia desistido de permanecer na chuva e no frio de Ceüse e resolvera embarcar de carona para Barcelona com um casal de americanos que eram nossos vizinhos de trailer, fazendo com que eu ficasse por minha conta (já que o combinado era ele cozinhar e eu lavar a louça, pois ninguém além de mim gostava da minha comida) uma vez que a chuva e o frio já havia espantado quase todos os escaladores que estiveram no camping, permanecendo apenas uma dupla de alemães que inclusive encontramos em Arco mas que não foram cativantes o suficiente para passar do "Bon Jour" matinal diário. Essa baixa já estava planejada desde quando fomos para França, porque ir para Espanha já fazia parte dos planos do Caio, só a data náo estava totalmente definida. Curiosamente 20 minutos após a partida de Caio e dos americanos o sol resolveu aparecer e permaneceu desde então. Passados 2 dias solitário e escalando em auto-segurança algumas das vias que normalmente costumava aquecer, finalmente "Jah" retornava ao camping para mais uma session de 15 dias de escalada dos quais escalamos quase todos, já que descansar não fazia parte da minha estratégia e tudo estava favorável para que tivesse êxito em meus projetos, fato que acabou ocorrendo, a não ser por uma única via que deixei pendente após perceber que precisaria de mais tempo de descanso e recuperação orgânica para executá-la.
Escalamos muito nessa última etapa em Ceüse e descansamos muito pouco, mas valeu muito a pena. Infelizmente como tudo que é bom dura pouco, me vi obrigado a retornar para a Itália e embarcar no vôo de volta ao Brasil. Ainda assim Ceüse pareceu não ter gostado muito da idéia e subitamente algumas coisas aconteceram que não pude sair da cidade e retornar a Milão, onde deveria estar no dia 19 de junho para voar de volta ao Brasil. Foram 3 dias de apreensão entre uma greve de trem, grana no limite p acabar, e como se não bastasse a pressão dos nossos amigos franceses e do meu irmão "Jahmeijou", acabei perdendo o único trem que iria sair no dia 18 de junho em direção ao meu destino. Foi um verdadeiro Deus nos acuda, depois de muito negociar consegui que um casal de amigos franceses me levassem rapidamente (mas rápido que o trem) até uma outra cidade para que então lá eu conseguisse embarcar nesse mesmo trem. Ufa, enfim consegui chegar a Milão no dia 19 de junho poucas horas antes do meu vôo mas a tempo.
Por todo o caminho de volta a ficha ainda não havia caído, não conseguia digerir que o sonho estava próximo de acabar, mas essa sensação não me deixava triste, apenas perplexo. Apesar de sentir muita saudade de pessoas importantes que deixei no Brasil, de ter a necessidade de voltar a trabalhar e estudar, não conseguia tirar Ceüse da cabeça. Mesmo tendo visitado outras falésias incríveis, talvez até melhores que Ceüse. 
Confissões

Nessa trip devo ter escalado em quase 20 falésias diferentes, fiz uma via de parede (num dia de descanso em Arco), conheci muitos escaladores de diferentes países e pude trocar experiências e informações com eles, experimentei vias de até 9a (fr), dirigi quase 2000km pelas rodovias da Itália num Smart, derrubei um cara de motorino acidentalmente em Milão, passei 3 meses em abstinência sexual total e só pensava na mesma mulher (a que eu amo), perdi 5kg mesmo tentando manter com muito esforço (azeite, pão, macarrão, queijo, chocolate, foram a base da dieta), aprendi um pouco sobre a cultura e idioma dos locais que passei, provei bons vinhos, bons azeites e excelentes queijos pois eram baratos (voltei viciado em azeite), carrego até hoje lesões consequentes da falta de descanso e ainda não consigo tirar Ceüse da cabeça...dentre outras coisas que no momento não me recordo.
Aconselho a todos que façam esse tour e se puder ainda inclua países como Suiça (fui apenas por um fim de semana para visitar família que tenho lá), Espanha, Rep. Tcheca, Alemanha, Grécia (principalmente). 
Outro conselho para aqueles que não gostam de roubada e estão com dinheiro extra é alugar um carro ou um motohome e programar a viagem para que comece nas semanas que precedem a temporada de escalada européia (verão deles), porque os picos ficam lotados na temporada.
Para os que tem facilidades como: grana, passaporte europeu, idiomas (espanhol, francês, inglês), tempo hábil e disposição de jeová, não sei nem o que vocês estão fazendo aqui!!!

A única coisa que gostaria de ter feito nessa trip e que não tive oportunidade, foi ter escalado: Parete Zebrata (Arco-Itália) e Verdon (França, 1:30h de Ceüse). Quem estiver nessa região não deixe de conferir esses dois lugares.

Agradecimentos

Caio Tombini e Lucas Marques por se encordarem na outra ponta da corda e por detestarem minha comida e cozinharem pra mim.
Anderson Birão e Dani por tudo que fizeram por mim sem medir esforços, desde hospedagem até disponibilizar tempo para escalar e apresentar as falésias e a galera local.
Seu Dinho, pai da Dani, pelas garrafas de vinho que derrubamos juntos e pelo agradabilíssimo papo entre uma e outra.
Ao Marco Tosco por ceder e dividir seu apto comigo e com o Caio e por aguentar o humor inconstante desse último, além do cheiro de alho que deixávamos ao cozinhar.
E excepcionalmente a todos que de alguma forma participou e participa de tudo que fazemos nessa vida, sempre.


         Por Bernardo Biê.